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A vida secreta da professora #1

A vida secreta da professora é uma coluna do blog, onde nossa colaboradora, Ágatha Menezes, conta algumas experiências marcantes da vida dela como professora de Educação Infantil e Fundamental.

É com prazer que inicio essa coluna. E se você não sabe quem eu sou, afinal de contas eu só escrevi um post nesse blog, basta clicar aqui e tem um devaneio meu sobre mim.

Agora vamos a uma breve apresentação. Sou professora há cinco anos e um pouquinho. E graças a Deus tive o prazer de trabalhar com quase tudo que o meu segmento, fundamental I (da Educação Infantil ao 5º ano), permite.

Desde o início, trabalho na rede pública de ensino da minha cidade, Rio de Janeiro. Ou seja, trabalho com crianças “carentes”, em múltiplos sentidos, mas não pensem com isso que elas são carentes de cultura e de infância (tenha na sua cabeça que são crianças, pensamentos infantis, inocentes), são parâmetros diferentes e venho aprendendo com elas desde então.

Vamos começar do início, para que vocês entendam o tom de conversa que verão por aqui: sou professora, meu trabalho é lidar com a aprendizagem, o desenvolvimento social/ intelectual/ afetivo, a formação de seres HUMANOS. É muita responsabilidade, principalmente quando se é inexperiente, mas é um crescimento pessoal muito grande conviver com eles.

Bom, o meu início na rede municipal e no magistério foi muito intenso. A minha primeira turma tinha muita dificuldade de aprendizagem e algumas crianças tinham um histórico de vida que faria muitos de nós querermos nos jogar da ponte (não saia correndo, não vou contar tristezas infinitas! Calma, volta aqui, senta e vem ouvir que o material é interessante).

O primeiro caso que quero compartilhar, e é sobre isto que essa coluna tratará, é um wallflower. Vou chama-lo de Marcelo, mas este não é seu nome, ok?

Em determinado momento, bem no iniciozinho, conhecendo a turma ainda, faço a pergunta:

“Quantos irmãos você tem? ”

Marcelo conta nos dedos, perde as contas e reinicia. Explico a pergunta, imaginando que ele não me entendeu:

“Perguntei quantos irmãos, e não quantos anos…”

Ele me interrompe:

“Então, nove! Tenho nove irmãos!”, ri. Acredito que eu tenha feito alguma expressão de confusão que o levou a rir.

Eu tinha 20 anos àquela época e nunca tinha visto isso na vida. Acreditava que aquele Caco Antibes do Sai de Baixo, dizia aquelas atrocidades de forma mais absurda possível, nunca imaginei que fosse próximo da realidade de verdade. Era apenas a primeira vez que eu ouviria essa frase.

Um pouco depois, em um momento de rebeldia de Marcelo, encaminho-o a direção (muito depois aprendi que resolver sozinha, em alguns casos, é a melhor opção), e descubro algo muito triste a seu respeito: Marcelo mora com a mãe e três irmãs mais novas. Ele tem nove anos, está repetindo o terceiro ano pela segunda vez. Sua mãe é ex-usuária de drogas e uma vez tentou matá-los, mas ninguém (órgãos responsáveis) os tirava da guarda dela em nome de uma reabilitação pela qual passou. E ela diz a plenos pulmões:

“Desisti desse garoto!”

Sim, um menino de nove anos. Sofrido (não saia correndo, calma!)!

E essa também era apenas a primeira vez que eu ouviria isso.

Durante o resto do meu primeiro ano, com a minha primeira turma (vocês ouvirão falar muito dela), descobri que Marcelo era um artista nato. Ele imitava a todos com perfeição. Nem sempre com a intenção de ofender, ele era um comediante muito engraçado, que ria e fazia rir com excelência. Imitava Michael Jackson, porque tinha um DVD pirata de “This is It” (filme que fez muito sucesso na época da morte do astro), e até tentava cantar num inglês embromeichon. Mas a arte que destacava Marcelo era o desenho, perfeitos.

No meu mural de avisos, o Mickey meio tortinho, mas que me trazia flores maravilhosas, ficou até o final do ano, quando ele foi aprovado e no ano seguinte amou outra professora como se fosse a mãe que ele nunca teve.

Marcelo foi o primeiro a me ensinar e vou tentar dividir com vocês um pouco de tudo que já aprendi e continuo aprendendo.

Isso é amor, o resto é posse
{Escrita Criativa} O tempo passou
{Escrita Criativa} O amor está nos detalhes

8 comentários
  • Byzinha

    Que bacana, Aguy! Me conta sempre que eu vou querer ler todas as postagens!

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    Mariana Reply:

    😉

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  • Angelica

    aguy, curti muito saber dessa coluna! a sala de aula pode ser maravilhosa! dificil, espinhenta, triste… mas maravilhosa! Eu nunca tive uma turma cem por cento minha e.pouco dei aula…. mas lendo seu texto me lembrei da beleza que eh essa profissao! nao perco por nada!?

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    Mariana Reply:

    😉

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  • Juliana

    Emocionante… Fiquei sem palavras. Vou amar essa coluna :}

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    Mariana Reply:

    <3

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  • Nana

    Realmente, as histórias em escolas rendem textos e textos, hein?! Muito legal!
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com

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    Mariana Reply:

    😉

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