Categoria "Escrita Criativa"

Isso é amor, o resto é posse

Em 24.11.2016   Arquivado em Escrita Criativa

Eu queria que você entendesse que eu não sou sua propriedade. Eu não vou colocar o seu sobrenome no meu RG como se fosse um boi marcado, não sou obrigada. Isso não faz diferença no relacionamento, só faz diferença pra você se sentir meu dono.

Eu sou sua companheira, e quero ser pro resto da vida. Mas o sentido de companheira é bem diferente do sentido de ser sua “mulher”. As pessoas falam dessa maneira, com um sentido pejorativo tão grande que me dá repulsa. Eu tenho asas, eu quero voar. Você tem 2 opções: ou voa comigo, ou me larga.

Não quero ser castrada, não quero ser amarrada, enjaulada, marcada, não quero sentir que não sou mais minha. Não quero me olhar no espelho e sentir que eu não sou mais eu, que virei uma pessoa que não reconhece o próprio rosto no espelho. Quero sentir que sou minha sempre, mesmo estando ao seu lado.

Quero que um apoie o outro, não quero sentir que você é meu pai, meu dono, meu senhor, meu mestre ou qualquer outra coisa soberana, pois você não é. Quero igualdade.

Quero igualdade em todos os níveis, desde o momento das louças lavadas até o momento de limpar a privada. Quero sentir que todos são responsáveis pela casa, pela família, pelos filhos, pela comida, pelo dinheiro, pela cama arrumada.

Quero saber que sempre posso sair pra alçar novos voos e que você estará lá comigo pra ter certeza que meus equipamentos de voo estão devidamente presos, pra eu não me estabacar. E que muitas vezes voe comigo.

Gosto de saber que posso voar mas que tenho pra onde voltar. Isso é amor. O resto é posse.

{Escrita Criativa} O tempo passou

Em 14.02.2016   Arquivado em Escrita Criativa

Sabe qual a minha vontade agora? Vou dizer! Eu quero agarrar você e te sacudir. Quero dar um tapa na sua cara e xingar, porque é isso que você merece. Por quantos anos eu estive apaixonada e você me desprezou? Por quanto tempo eu coloquei você como minha prioridade máxima e você disse que era melhor sermos bons amigos? Quantas vezes eu tive que escutar que você preferia ter somente minha amizade porque tinha medo de tentar alguma coisa e não dar certo e me perder de vez? Quantas vezes eu chorei deitada na cama, olhando pro teto, imaginando o que havia de errado comigo, pra você não conseguir me enxergar… Muitas!

Chegou uma hora, que o sentimento era tão grande e aquilo tudo estava me fazendo tão mal que eu quis fazer o papel de sua amiga, se era isso o que você queria. Vi você postar fotos abraçadinho com outras meninas no Facebook. Escutei suas ladainhas com elas. Vi você terminar com uma e começar com outra. E eu sempre fiquei imaginando quando seria finalmente a minha vez. Sempre imaginei quando você finalmente veria que era eu que você precisava.

O tempo passou… Suas apunhaladas diárias no meu peito começaram a doer cada vez menos. Fiquei amortecida. Criei uma casca. Escutei com o ouvido e fechei meu coração. Fiz cafuné quando você estava mal. Dei conselhos sinceros, pois sempre quis seu bem. Semanas passaram. Meses passaram. Anos passaram. Me acostumei com aquela situação. Me contentei em ser somente sua amiga. Olhei pro lado quando você beijou aquela garota na minha frente. Aquele foi o último golpe.

O tempo passou… Já chorei tudo que tinha que chorar. Já sofri tudo que podia. Já me afoguei numa panela de brigadeiro. Uma? Não. Muitas. Perdi a conta. De vez em quando, quando estava muito difícil de suportar, meu consolo era o brigadeiro. Tudo porque eu simplesmente não conseguia sair de perto de você e deixar você seguir seu rumo. Eu não conseguia só seguir minha vida e deixar você ir. Eu estranhamente precisava saber o que você fazia, precisava olhar nos seus olhos. Precisava sentir seu cheiro e tocar seu cabelo, nem que fosse na sua fossa por outra mulher.

Mas eu me curei dessa doença. Finalmente eu consegui pular desse barco e nadei. E vi que existia vida fora da nossa bolha. Conheci homens que realmente me colocam como prioridade máxima. E agora estou tentando seguir meu rumo. Estou tentando refazer minha vida. E qual direito você tem de vir me dizer, depois de tanto tempo, que me ama? Hoje? Sério?

Por quantas noites eu sonhei com essa declaração, mas acordei pro meu papel de amiga. Quanto tempo desperdicei gostando de uma pessoa que só me queria em um nível bem abaixo do que eu merecia. E agora que eu finalmente saio da bolha você diz que me ama? Que droga de história é essa? Você acha que fala isso e eu volto correndo pros seus braços, largo um namorado que me quer bem por você? O que você tem a me oferecer?

Eu já conheço nossa dinâmica. E ela não é boa. Não é saudável pra mim. Mas é bom pro seu ego. Desculpa, mas realmente seu tempo passou. Eu queria dizer que não, mas hoje eu olho pra você e vejo um homem fraco. Um homem sem autoestima que precisa da bajulação das pessoas pra se sentir por cima da carne seca. E não é um homem desse tipo que eu quero pra mim.

Seja feliz em sua jornada.

{Escrita Criativa} O amor está nos detalhes

Em 30.10.2015   Arquivado em Escrita Criativa

(Foto inspiração daqui)

Você levantou da cama tão de levinho que eu só percebi porque seu lugar virou um vazio gigante e quentinho. Senti o cheiro do pão na chapa vindo da cozinha, e decidi que não ia abrir os olhos. Tem sensação melhor que essa?

Minhas suspeitas eram verdadeiras. Você veio até o quarto com uma bandeja com tudo que eu mais gosto: pão na chapa com manteiguinha, ovos mexidos e suco de manga. Você me conhece bem, e eu gosto disso. Você é atencioso com os detalhes, e é isso que eu mais amo em você.

Você se sentou ao meu lado pra me ver comer. Meu cabelo ainda estava todo amassado de ontem à noite, e eu fiz um cóque pra disfarçar. Adoro olhar pra você quando acorda. Dizem que as pessoas são feias quando acordam. Mas você é lindo, e é isso que eu mais amo em você.

Fui te dando mordidas do meu pão. Não é preciso muito pra ser feliz, não é mesmo? Uma noite com a sua companhia e metade de um pão na chapa me fazem assim pelo resto do final de semana. Até a saudade bater novamente e a gente precisar renovar o estoque de amor um pelo outro. Você é feliz todos os dias. Mas quando está comigo seus olhos brilham, e isso é o que eu mais amo em você.

A gente poderia sair pra passear hoje, não é mesmo? O dia está lindo lá fora, e eu adoro a primavera. Mas ficar aqui no nosso mundo é tão melhor! Uma bandeja de café da manhã no chão e você abraçado em mim é o melhor programa do dia. Gosto quando você me abraça por trás e a gente fica enrolado no edredon, até eu estar tão suada que preciso expulsar o cobertor da cama com o pé. Seu corpo é quente e me traz segurança, e é isso que eu mais amo em você.

Ficar aqui é tão bom que não consigo descrever. Olhar você bem de perto, sentir o cheiro da sua pele, a quentura do seu corpo. Ver cada poro da pele do seu rosto, as ruguinhas dos anos que já começam a aparecer. Poder mexer no seu cabelo. Poder beijar você a qualquer momento. Ficar conversando sobre tudo e sobre nada. Você é meu melhor amigo e eu posso contar com você pra tudo, e é isso que eu mais amo em você.

Um dia eu sonhei que você cantava Thinking Outloud baixinho no meu ouvido. Acordei com o coração apertadinho de saudade. Mal sabia eu que você faria melhor que o sonho. Ver você tocando violão já é lindo, ver você tocando pra mim aquela música me faz derreter toda por dentro. E eu nunca falei pra você sobre meu sonho! Suas atitudes espontâneas me conquistam mais a cada dia, e é isso que eu mais amo em você.

Lembro a primeira vez que a gente saiu. Você tocava em mim “acidentalmente” e meu corpo dava choque. Eu tinha vontade de pular em cima de você e me enroscar no seu corpo de uma maneira que não sei explicar. Você sempre me tirou do eixo, desde a primeira vez, e é isso que eu mais amo em você.

Essa semana estava conversando com a Tati, lembra dela? Ela falou que meu olhos brilhavam, e eu disse que a culpa era sua. Ela me perguntou por que eu te amava tanto, e eu não soube responder. Escolher uma coisa só é covardia com as outras.

A vida secreta da professora #1

Em 16.09.2015   Arquivado em Escrita Criativa

A vida secreta da professora é uma coluna do blog, onde nossa colaboradora, Ágatha Menezes, conta algumas experiências marcantes da vida dela como professora de Educação Infantil e Fundamental.

É com prazer que inicio essa coluna. E se você não sabe quem eu sou, afinal de contas eu só escrevi um post nesse blog, basta clicar aqui e tem um devaneio meu sobre mim.

Agora vamos a uma breve apresentação. Sou professora há cinco anos e um pouquinho. E graças a Deus tive o prazer de trabalhar com quase tudo que o meu segmento, fundamental I (da Educação Infantil ao 5º ano), permite.

Desde o início, trabalho na rede pública de ensino da minha cidade, Rio de Janeiro. Ou seja, trabalho com crianças “carentes”, em múltiplos sentidos, mas não pensem com isso que elas são carentes de cultura e de infância (tenha na sua cabeça que são crianças, pensamentos infantis, inocentes), são parâmetros diferentes e venho aprendendo com elas desde então.

Vamos começar do início, para que vocês entendam o tom de conversa que verão por aqui: sou professora, meu trabalho é lidar com a aprendizagem, o desenvolvimento social/ intelectual/ afetivo, a formação de seres HUMANOS. É muita responsabilidade, principalmente quando se é inexperiente, mas é um crescimento pessoal muito grande conviver com eles.

Bom, o meu início na rede municipal e no magistério foi muito intenso. A minha primeira turma tinha muita dificuldade de aprendizagem e algumas crianças tinham um histórico de vida que faria muitos de nós querermos nos jogar da ponte (não saia correndo, não vou contar tristezas infinitas! Calma, volta aqui, senta e vem ouvir que o material é interessante).

O primeiro caso que quero compartilhar, e é sobre isto que essa coluna tratará, é um wallflower. Vou chama-lo de Marcelo, mas este não é seu nome, ok?

Em determinado momento, bem no iniciozinho, conhecendo a turma ainda, faço a pergunta:

“Quantos irmãos você tem? ”

Marcelo conta nos dedos, perde as contas e reinicia. Explico a pergunta, imaginando que ele não me entendeu:

“Perguntei quantos irmãos, e não quantos anos…”

Ele me interrompe:

“Então, nove! Tenho nove irmãos!”, ri. Acredito que eu tenha feito alguma expressão de confusão que o levou a rir.

Eu tinha 20 anos àquela época e nunca tinha visto isso na vida. Acreditava que aquele Caco Antibes do Sai de Baixo, dizia aquelas atrocidades de forma mais absurda possível, nunca imaginei que fosse próximo da realidade de verdade. Era apenas a primeira vez que eu ouviria essa frase.

Um pouco depois, em um momento de rebeldia de Marcelo, encaminho-o a direção (muito depois aprendi que resolver sozinha, em alguns casos, é a melhor opção), e descubro algo muito triste a seu respeito: Marcelo mora com a mãe e três irmãs mais novas. Ele tem nove anos, está repetindo o terceiro ano pela segunda vez. Sua mãe é ex-usuária de drogas e uma vez tentou matá-los, mas ninguém (órgãos responsáveis) os tirava da guarda dela em nome de uma reabilitação pela qual passou. E ela diz a plenos pulmões:

“Desisti desse garoto!”

Sim, um menino de nove anos. Sofrido (não saia correndo, calma!)!

E essa também era apenas a primeira vez que eu ouviria isso.

Durante o resto do meu primeiro ano, com a minha primeira turma (vocês ouvirão falar muito dela), descobri que Marcelo era um artista nato. Ele imitava a todos com perfeição. Nem sempre com a intenção de ofender, ele era um comediante muito engraçado, que ria e fazia rir com excelência. Imitava Michael Jackson, porque tinha um DVD pirata de “This is It” (filme que fez muito sucesso na época da morte do astro), e até tentava cantar num inglês embromeichon. Mas a arte que destacava Marcelo era o desenho, perfeitos.

No meu mural de avisos, o Mickey meio tortinho, mas que me trazia flores maravilhosas, ficou até o final do ano, quando ele foi aprovado e no ano seguinte amou outra professora como se fosse a mãe que ele nunca teve.

Marcelo foi o primeiro a me ensinar e vou tentar dividir com vocês um pouco de tudo que já aprendi e continuo aprendendo.

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