O dia em que meu pensamento mudou…

Em 20.06.2014   Arquivado em Pessoal

Meu filho tinha mais ou menos 15 dias de vida, e eu ia levá-lo ao pediatra porque ele estava passando mal e com dificuldades de ganhar peso. Dei banho nele na banheirinha, escolhi uma roupinha linda. Enfeitei ele todo, deixei ele bem cheiroso, coloquei no sling. Peguei as 2 bolsas que eu tinha arrumado pra ele (vai que acontece alguma coisa! mãe de primeira viagem é assim mesmo). Chamei o táxi.

Até aquele momento, eu estava cheia de dedos com meu filho. Estava recebendo poucas visitas em casa pra ninguém passar uma doença pra ele, e pra deixar a gente descansar. Mesmo os de casa, tinham que se lavar até os cotovelos e depois passar álcool pra ficar sem bactérias. As roupas de cama estavam sendo trocadas dia sim, dia não. Ele ficava sempre no conforto do bercinho dele, no quartinho dele, ou comigo no carrinho do lado da minha cama. Ok, pra mim, estava tudo normal, exceto pelo fato de eu estar indo pela primeira vez sair com ele sozinha, mas afinal de contas eu estava de táxi.

Entrei no carro e achei que o som estava alto demais e o ar condicionado frio demais. Pedi pra ele modificar pra não importunar meu bebê. Estávamos quase chegando ao pediatra quando o sinal fechou e eu olhei pra fora pra ver a paisagem. Vi uma família sentada no banco da praça. Era a mãe, o pai e 2 filhos, o mais novinho não deveria nem ter 2 anos. Os 4 dividiam apenas 1 quentinha. A mãe pegava a colher e dava na boca pra cada um: uma pro filho, uma pro outro filho, uma pro pai, uma pra ela. E ia fazendo esse círculo, onde os filhos ficavam com os olhos bem atentos às movimentações da mãe. O táxi ficou parado naquele sinal tempo o suficiente pra eu me sentir culpada por ser tão fresca com uma criança, enquanto outras passam tantas necessidades, vivem em condições tão precárias, e sobrevivem.

Fiquei com aquela imagem na cabeça o dia inteiro. Fiquei com a imagem na cabeça até hoje, na verdade, e acho que nunca esquecerei. Nunca esquecerei o dia em que eu me senti tão egoísta por achar que eu era pobre porque estava contando o dinheiro pra pagar o táxi. Na verdade eu era tão rica, olhando aquela família de dentro do táxi, com o ar condicionado ligado, minha barriga cheia, meu filho cheiroso no sling com 2 bolsas só pra ir ao pediatra. Eu poderia ter ido ao pediatra de ônibus e ter comprado 4 quentinhas pra eles com aquele dinheiro. Mundo injusto.

  • soraia

    Em 20.06.2014

    muito legal , mas você sentiu pena mas continua como a maioria das pessoas não fazendo nada . Ninguem economiza ao comprar mais uma roupa ou uma make , pra guardar o dinheiro e dar uma quentinha pra alguem que está precisando na rua , ninguém volta ao lugar aonde viu um mendigo e dá a ele um prato de comida ou um agasalho ! Nós precisamos mudar , não só sentir pena mas não fazermos nada . Vamos aos poucos procurar mudar o mundo .
    Por nossos filhos e filhas .

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    Mariana Reply:

    Naquele dia infelizmente realmente não pude fazer nada porque já tinha gastado meu dinheiro com o táxi e não podia prever que ia encontrar essa família. Mas realmente tenho minha consciência tranquila porque faço muito e por muita gente. Só que não convém ficar mostrando pro mundo o que eu faço, porque eu não procuro ser aplaudida por isso.
    E você? Tem a sua consciência tranquila?
    Beijos :)

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  • Rosah Campos Galiazzi Pastro

    Em 20.06.2014

    Gostei muito da tua resposta, Mari. É isso mesmo. Quem faz não precisa avisar, pois parece que está esperando o aplauso do mundo. Temos que fazer sem dizer para os outros, sem avisar aos quatro ventos.
    parabéns, Mariana.
    Bjks

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    Mariana Reply:

    😉

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  • Linkando #1 – Stuck On Them | Stuck On Them

    Em 20.06.2014

    […] O dia em que meu pensamento mudou… – Blog da Mariana […]

  • Camila

    Em 20.06.2014

    Eu não conhecia seu blog e o encontrei pela rotação de banners do rotaroots… Achei todo lindinho e estou aqui stalkeando os posts e tal quando encontrei esse….

    Até me arrepiei com a história e o jeito que você escreveu. Realmente algumas vezes somos tão egoístas e nem nos damos conta disso! Fiquei feliz com a sua percepção da realidade, em observar a família com os olhos voltados à eles e não com a intensão de se justificar.
    Quando vejo esse tipo de coisa percebo que o mundo não está perdido :)

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    Mariana Reply:

    aquele foi um dia muito trash… nunca mais vou me esquecer daquela família. :(
    bjos

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