O vilão da amamentação

Em 19.01.2014   Arquivado em Maternidade

Assim como a maioria das mulheres, quando estava grávida ansiava por poder amamentar meu bebê. Mas também me sentia preocupada e ansiosa. Preocupada se eu teria leite suficiente, ansiosa se eu conseguiria amamentar como se deve.

Quando o Rodrigo nasceu, logo nos primeiros dias fui informada (coisa que eu não sabia) que quando você tem parto cesárea, demora uns dias pro leite descer, e ainda no hospital precisei recorrer ao complemento porque meu leite não tinha descido. Fiquei muito triste com isso, porque sonhava amamentar exclusivamente meu filho no leite materno até o 6º mês.

Quando cheguei em casa ainda estava com este problema, meu leite não tinha descido completamente, estava vindo muito pouco colostro e ele berrava de fome. Eu amamentava a cada 1hr, deixava ele pendurado no peito o quanto quisesse. O garoto sugava o dia inteiro. No 6º dia pedi arrego, meu peito estava totalmente ferido, ele tinha arrancado um pedaço do meu bico esquerdo com a sucção e eu sentia que não tinha leite. A pediatra pesou ele, viu que ainda estava perdendo peso e não tinha estabilizado, então ela disse que ele estava sugando muito, gastando muita energia, e não tinha leite suficiente. Ela então passou o complemento pra ele, na seguinte condição: primeiro eu amamentava, depois dava de 30ml a 60ml.

Inconformada com o veredito, fui parar no 8º dia com meu filho no Instituto Fernandes Figueira, onde as enfermeiras me “ensinaram” a amamentar meu filho em 15 minutos. Apertaram meu seio e como não esguichava, disseram que eu tinha pouco leite e que eu deveria tomar homeopatia pra ajudar a descer, e me orientaram a dar o complemento pra ele por uma sonda junto com a amamentação.

Voltando pra casa, tentei fazer tudo que tinham me orientado. Peito + complemento, sonda, concha, pomada, banho de sol de topless, blá blá blá… Quinhentas milhões de regras pra amamentar uma criança morta de fome. Mas nada parecia dar certo. Meu filho chegou a ficar 6 dias sem evacuar, com muita prisão de ventre e muita cólica por causa do leite de fórmula. Era uma tristeza e uma preocupação muito grande pra mim.

Na consulta de 1 mês a pediatra viu que ele ainda não tinha ganhado peso como deveria, que ainda estávamos com dificuldade na amamentação, então resolveu que eu iria dar o peito e depois complementar de 60ml a 90ml de leite de fórmula (agora trocaríamos a fórmula para leite sem lactose). Disse que meu filho tinha o queixo curto e isso dificultava fazer a sucção, era uma dificuldade dele. Ela me deu um outro remédio pra ajudar a fazer leite (além da homeopatia que eu estava tomando). Eu falei que queria fazer a relactação, mas como ele ainda estava abaixo do peso, ela me disse que ainda não era a hora. Só depois que ele regularizasse o peso. Lá fui eu, voltei pra casa, me sentindo horrível porque não tinha leite suficiente, meu filho estava tomando fórmula que fazia mal a ele e a culpa era minha. Ele não ganhava peso e a culpa era minha. Ele tinha o queixo curto e a culpa era minha. Não nos entendíamos na amamentação e a culpa era minha. Mas eu queria continuar tentando.

Na consulta de 2 meses o problema tinha se agravado. Ele mamava 15 minutos cada peito mas eu sentia que não tinha muito leite. A médica apertou meu seio e disse que eu tinha leite, talvez não o suficiente, mas eu tinha. Relactação ainda não podia porque ele ainda estava abaixo do peso, então agora era peito + 120ml de fórmula. Volto eu pra casa frustrada.

Até que um belo dia ele começou a ter diarreia. A princípio achei que eu poderia ter comido alguma coisa que fez mal a ele. Tentei ter a dieta mais natural possível. A diarreia não passava. Ele fazia de 10 a 12 cocôs por dia, totalmente aguado, e já dava sinais de desidratação. A linda pediatra não atendia minhas ligações nem respondia minhas mensagens de texto. Eu comecei a ficar desesperada. Depois de 1 semana com esse quadro eu não aguentei mais e levei ele até o pronto-socorro. Chegando lá, a médica do plantão quis internar ele direto. Eu fiquei muito nervosa: como assim meu filho de 2 meses internado?

Meu marido resolveu ligar pra pediatra pela última vez. Talvez a pediatra tenha atendido porque era um número diferente (não sei, não quero levantar falso testemunho, mas se você fica 1 semana ligando e mandando mensagem de texto e a pessoa não atende, mas depois logo na primeira ligada de outro número ela atende prontamente, isso me dá o que desconfiar). Quando meu marido explicou o quadro que se apresentava, a lindona da pediatra pediu pra falar com a médica de plantão, deu um escândalo com ela, e falou pro meu marido não deixar nosso filho ser internado e levar ele embora. “Dá Pedialyte em casa pra não deixar ele desidratar e espera a diarreia passar. Diarreia não tem cura.” Desligou o telefone.

Levamos o bebê pra casa, fizemos conforme a orientação da pediatra. Peito + 120ml + Pedialyte nos intervalos das mamadas. Mas a diarreia não passava, a bunda e o saquinho dele em carne viva de assadura, ele fazia cocô água da cor do sabor do Pedialyte e nada de melhorar. Resultado: uma mãe frustrada e preocupada e um bebê chorando pra caramba. Ainda tive que ouvir de muita gente que ele só estava com diarreia e com pouco peso porque eu não amamentava ele só no peito (como se eu estivesse fazendo isso tudo de sacanagem). No final das contas a culpa é sempre da mãe, de tudo o que acontece com o filho, principalmente as coisas ruins. As pessoas não têm o menor tato pra falar o que pensam, e muito menos pensam se devem falar ou se seria melhor ficar de boca fechada. Era horrível pra mim, quando as pessoas vinham me dizer que o leite jorrava, que o filho se engasgava com tanto leite materno, que ele ficou roliço de gordo por causa do leite materno, e por aí vai…

Tomei coragem e resolvi cortar o Pedialyte por conta própria e trocar por água de côco. Pensa comigo: o Pedialyte tem açúcar e é cheio de corante! Se ele pode tomar essa porcaria, por que não pode tomar água de côco? Então tomou. Melhorou a desidratação, ele voltou a fazer cocô com cor de cocô (embora ainda diarreia). Naquela altura do campeonato nunca mais queria nem ligar pra pediatra dele, de tanta raiva que eu tinha no meu coração. Resolvi levar Rodrigo em outro pediatra.

No dia que ele fez 3 meses eu levei meu bebê em um médico perto da minha casa, que eu consegui um encaixe de emergência, por ter ficado me lamuriando com a secretária um tempão. Chegando na consulta, contei toda a história para o pediatra e ele disse: “Mãe, seu filho está fazendo seu peito de chupeta. Ele mama a mamadeira, e seu peito é só pra relaxar.” Nessa hora o Rodrigo gritava de fome e eu quis provar pra ele que aquilo não era verdade. Coloquei ele no peito pra mamar, e o Rodrigo dormiu quase instantaneamente. E ainda mais, o pediatra falou que muito provavelmente meu filho estava com diarreia há mais de um mês porque estava com alergia ao leite sem lactose, e teríamos que entrar um um leite mais fresco e mais caro ainda, mas antes íamos fazer um teste de sangue e fezes pra saber se era isso mesmo. Eu conversei com ele sobre relactação, mas ele falou que com 3 meses não dava mais pra fazer isso, era tarde demais. A pediatra anterior deveria ter feito isso com o bebê com 1 mês, no máximo.

Cheguei em casa desolada. Chorava de soluçar e minha mãe tentava me acalmar. Eu era uma mãe horrível. Não conseguia amamentar meu filho, não tinha leite suficiente, o queixo dele era curto, ele não conseguia fazer a sucção direito, ele estava abaixo do peso, já tinha tomado um monte de leite de fórmula, estava com diarreia há mais de um mês, meu peito era só chupeta, e tudo era minha culpa.

Nessas horas você pensa em quando você estava grávida, como você imaginava tudo lindo, um filho gordo, cheio de dobrinha na coxa só de mamar no peito, eu seca de tanto peso que tinha perdido por estar amamentando que nem uma vaca, o leite jorrando do peito… Mas essa é só uma cena imaginativa, a realidade era bem diferente e dura.

A parte boa disso tudo é que no próximo filho eu não vou deixar dar a fórmula nem a primeira vez, já tive essa péssima experiência e não quero de novo. Vai ser só no peito, eu e meu filho, e vamos seguindo. Cair na armadilha do leite formulado só por 15 dias enquanto ele não consegue mamar direito, enquanto o leite não desce, resulta em um filho cheio de problemas, uma mãe frustrada e o bolso vazio (porque olha, ô leite pra comer dinheiro). Se na sala de parto, quando o Rodrigo nasceu, tivessem colocado ele sem roupa em cima de mim, e tivéssemos tido o contato físico sem roupa, se ele tivesse mamado na sala de parto, mesmo sem leite ainda, meu corpo teria entendido que o filho tinha nascido e o leite teria descido. Uma simples ação pra uma mãe que teve uma gravidez de alto risco e não pôde fazer parto normal. Coisas simples. A natureza é perfeita. A gente é que complica.

Agora eu quero ir na contra-mão. Todo mundo diz que é impossível fazer a relactação, pois eu quero tentar. Se vai dar certo, eu não sei. Se eu vou conseguir, eu não sei. Mas não vou desistir sem tentar. Vou procurar todas as informações possíveis e vou tentar. Meu filho tem direito de mamar no peito exclusivamente. Eu tenho o dever de tentar dar isso a ele. Ninguém pode me enfiar mais a ideia de leite formulado goela abaixo. Está com pouco peso? Está. Mas se nem a fórmula fez ele ficar gordo, então talvez meu peito consiga. E vamo que vamo…

(Aguardem cenas dos próximos capítulos)

  • Rafael

    Em 19.01.2014

    Quando eu era pequeno, minha mãe não teve leite suficiente. Tive uma mãe de leite haha, que me amamentava.
    Acho que por ser algo mais artificial, a cesariana não libera os hormônios adequados como o parto natural, para que o leite desça. Deve ser por isso também que a cesariana é evitada quando desnecessário lá fora, além de outros motivos…
    Algumas mães não tem hormônios suficiente, ou tem algum problema que dificulta a produção de leite, não acho que seja culpa sua necessariamente.
    Depois conta como foi a relactação, fiquei curioso. E força ai! Que pediatra sacana, ainda bem que tu trocaste. Nessas horas eu acho que consultaria uns dois ou três médicos para ver o que eles diriam…

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    Mariana Cruz Reply:

    poxa, vc me deu uma boa ideia… nunca pensei em ver alguém pra ser mãe de leite dele… assim me ajudava!
    eu já estou procurando outros pediatras e tb estou pesquisando muito na internet…
    com certeza eu vou contando aqui as próximas notícias!
    bjos :)

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  • Viviane

    Em 19.01.2014

    Nossa…li tudo e aprendi mto…nao vou deixar darem formula pro meu filho. Mesmo q eu nao tenha leite suficiente, so ele pode fazer a producao aumentar…obrigada, mariana!

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    Mariana Cruz Reply:

    conversa com a sua médica se vc tiver cesárea pra vc pegar ele sem roupa e encostar ele no seu corpo, pro seu corpo entender que o filho nasceu e produzir a ocitocina, que é o hormônio que faz o leite descer! e também se for o caso de demorar a descer, vc pode pedir pra médica pra pingar no nariz o syntocinon, que é o remédio que faz produzir a ocitocina! mas não deixa darem fórmula pra ele!!!!

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  • Andreia Santos

    Em 19.01.2014

    Nossa, sua história sem duvida me emocionou… sem duvida vc eh uma super mae, e com certeza no dia que seu filho souber da tua garra e persistência para que ele pudesse ser amamentado com leite materno, vai te admirar, e disso eu nao duvido!! Comigo foi diferente, eu tinha muito leite que meu chegava a ficar duro, impedindo minha filha de mamar… fiquei com o mamilo todo em feridas e doía cada vez que tinha que amamentar… via mães que estavam nem aí, com leite mas que não queriam amamentar! Foi então que eu decidi doar leite, assim esvaziava o peito e minha filha podia mamar!

    Admiro sua garra!

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    Mariana Reply:

    oi andreia! seja bem vinda ao meu cantinho!
    realmente pra amamentar tem que ter garra, seja com pouco leite ou com muito, não é? hahahahaha…
    seu gesto tb foi muito especial, muitas mães precisam de leite doados pros seus filhos, e é bem difícil de conseguir! parabéns!
    bjos :)

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  • Yasmin

    Em 19.01.2014

    Oi linda, meu filho tem 1 ano e 2 meses agora e fui abençoada nesse ponto da amamentação, mas sei o quanto é difícil amamentar… Vc não tem culpa de nada, nem sempre as coisas acontecem do jeito que a gente sonha, infelizmente!! Tive parto normal, apesar de meu filho ter ido pro meu colo assim que nasceu eu não o amamentei logo, e sim umas 2 horas depois (burrice e falta de conhecimento meu) por ter que tomar alguns pontos e querer que nesse momento eu estivesse tranquila, não sabia como dar mamar, apesar de ter tido várias palestras sobre isso, meu marido que colocava meu filho no peito, mas depois peguei a prática e amamento até hoje (apesar de ouvir muitas críticas e comentários incovenientes)… Agora que me dá umas rachadurinhas no peito e fica dolorido pelo meu filho as vezes mamar com a cabeça virada pro outro lado, mas ainda assim eu continuo lutando por isso, assim como vc… Não é nem um pouco fácil, por causa do peito meu filho sempre foi muito dependente de mim, não fica mais de 2 hs com outra pessoa, ainda acorda de madrugada pra mamar e tem dias que ele pega no sono pesado apenas por 2 hs, quando já são 7 hs da manhã… É muito cansativo, as vezes penso em desistir mas continuo!! Admiro vc por sua força e decisão em amamentar mesmo com algumas dificuldades… É fácil amamentar quando não se tem problemas, mas continuar lutando mesmo com eles é ser mãe!! Parabéns por não desistir!! Mas me conta como terminou essa história!?

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    Mariana Reply:

    Não fique ligando pra esses comentários… O que mais tem é gente sem noção pra fazer comentário que deixa a gente triste… Pelo Ministério da Saúde o recomendado é amamentar pelo menos até os 2 anos… tem culturas que é até os 3 anos… Conheço mães que amamentam com o filho com mais de 2 anos… Você está fazendo o que é certo pro seu filho!!! E ninguém tem que ficar se metendo na sua vida! 😛
    Quanto ao meu filhote, ele mesmo decidiu quando abandonar meu peito. Quando eu introduzi os alimentos sólidos ele não quis mais. Eu tentei de tudo, mas ele mesmo não queria mais, aí meu leite secou. Fiquei muito triste, chorei muito, mas agora já deixei pra lá… Se ele quisesse continuar, mesmo com todas as dificuldades eu ia ficar lá com ele tentando até o final! 😉
    Bjos

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