O dia que eu parti

Em 29.06.2015   Arquivado em Escrita Criativa

(Foto-inspiração daqui)

Sinto a dor como se fosse ontem. Aquela manhã de sábado, em que eu fiquei por horas sentada no sofá da sua sala. Eu estava no meu limite. Tinha vivido no meu limite por 1 ano e meio. E a culpa era sua.

Nunca achei que alguém pudesse amar tanto nessa vida como eu amei. Nunca achei que um coração poderia bater tão descompassado por alguém. Nunca achei que um beijo pudesse encaixar tão perfeitamente. E nem os quadris. Mas assim era você pra mim, perfeitamente encaixável no meu mundo.

A cada minuto que passava, minha ansiedade aumentava. A dor era muito grande, porque eu sabia o motivo de estar ali. Sabia que aquela era a última vez que ia sentar naquele sofá. Sabia também que você não viria atrás de mim. Era uma atitude kamikaze, mas tinha de ser feita.

Minha cabeça gritava: “Fique onde está!” mas meu coração também gritava, tentando ser mais alto: “Abra aquela porta!”. Eu sabia que se eu abrisse, veria você dormindo de barriga pra cima, e poderia contemplar você, como fiz tantas vezes.

Sua mãe me oferecia água, suco e bolo a cada 5 minutos. Ela não sabia muito bem o que dizer, mas sabia que algo aconteceria. Nossos olhares se entenderam, e ela ficou triste por nós. Sua mão ficou no meu ombro por quase 3 Mississipis, e as lágrimas vieram à tona. Ela sempre foi tão boa pra mim! Também não queria ter que deixá-la, mas era preciso. Eu enxuguei as lágrimas sem ninguém ver. Eu não ia ceder, não daquela vez.

Você demorou muito tempo pra acordar, e durante aquelas horas, um filme detalhado de toda a nossa história passou pela minha cabeça. Aquilo foi tortura. Mas todas as torturas que eu passo na minha vida só me fazem mais fortes.

A porta abriu.

Você saiu só de short com a cara amassada e me olhou espantado. Fez sinal que ia escovar os dentes e foi em direção ao banheiro. Eu entrei no seu quarto e senti seu cheiro. Não podia pensar muito naquilo. Abri a gaveta que costumava ser minha. Peguei todas as roupas e enfiei na mochila, sem me preocupar se estavam ficando todas amassadas. Sentei na cama desarrumada e quente do seu corpo.

Você parou na porta com uma cara de que não estava entendendo muita coisa. Um mês! Fazia um mês que você não me ligava! E da última vez que eu tinha ido até sua casa, eu tinha achado um par de meias rosas em cima da sua cama, lembra? Não! Aquelas meias não eram da sua mãe, eu tenho certeza! Podia estar errada em muitas coisas, mas não naquilo.

Eu falei que estava indo embora. Eu falei sobre as meias. Você insistiu que eram da sua mãe, mas não argumentou muito. Aquele era o fim. Assim, rápido. Como foi o começo. Levantei e peguei a mochila. Vi sua mãe de relance, sentada na cozinha comendo. Ela estava olhando pra mim. Eu queria abraçá-la e me despedir, mas eu estava prendendo a respiração pra não chorar. Falei um tchau rápido, enquanto acelerava o passo. Seu portão parecia nunca chegar. Eu só queria respirar. Respirar e chorar.

As lágrimas desciam como uma cachoeira. Eu não tinha noção mais das pessoas à minha volta nem de onde estava. Nem lembro como cheguei em casa, na verdade. Só lembro da dor. E das lágrimas. Cheguei em casa e minha mãe veio me acudir, achando que eu tinha sido assaltada. Não, eu não tinha sido assaltada. Tinha sido assassinada. Estava morta por dentro. E naquele dia, nem o colo dela foi o suficiente.

Honey, quantos anos fazem isso? Ainda sinto o seu cheiro.

  • Ana Paula Correa

    Em 29.06.2015

    Mari ja pensou em algum dia ser uma autora? Os seus textos sao lindos, de uma profundidade ímpar, me pego muitas vezes me tele transportando em suas palavras e imaginando os personagens. Parabéns e muito obrigada por poder compartilhar destes momentos..bjsss

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    Mariana Reply:

    obrigada! jah sim! e espero que um dia eu seja! *dedos cruzados* rsrsrs
    bjos

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  • Ana

    Em 29.06.2015

    Amei o texto! de verdade! parabéns
    Anacorte.blogspot.com

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    Mariana Reply:

    que bom! obrigada :)

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    Roberta Reply:

    Aaaaai que lindo!!! Que texto mais que perfeito! Nossa, quantas vezes não passamos por momentos assim. Como se eu narrasse em minha própria mente, as ocasiões que, como essa me ocorreram também. Lindo! Orgulhosa de vc, amiga!

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    Mariana Reply:

    <3

  • Clay

    Em 29.06.2015

    Que texto maravilhoso, Mari!!

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    Mariana Reply:

    <3

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  • Pennelope

    Em 29.06.2015

    Chorei, e li novamente…
    E chorei mais uma vez.
    Vivi uma história assim…
    A dor foi insuportável, mas conseguir silenciar.

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    Mariana Reply:

    minha mãe sempre diz que o tempo cura tudo, mas acho q tem coisas q o tempo passa e a gente aprende a lidar… 😉

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