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Quanto custa o meu dinheiro… E quanto vale uma mãe!

De vez em quando eu escuto umas histórias de pessoas que tem a minha idade, ou mesmo mais velhas, que simplesmente não sabem quanto custam o dinheiro ou que não dão valor aos pais que têm. Como diz o Dr. Chapatim: "Isso me dá coisas!"

Vamos dizer que cresci em uma família de classe média mas que tinha sobras, ou seja, não éramos ricos mas vivíamos bem. Eu tinha os brinquedos da Xuxa, uma vitrola no meu quarto com todos os discos que desejasse, um videocassete com todos os filmes que eu quisesse e comia bem, ia à boas escolas. Apesar dessas coisas, nunca fui a garota mimada que só usa roupas de marca e não anda de ônibus. Sempre ganhei presente só em data comemorativa, não podia comprar roupas na hora que quisesse e sempre me deram mesada e me ensinaram como gastar meu dinheiro com responsabilidade. Fui uma adolescente que ia pra feirinha comprar roupa mais barato, comprava um sapato que combinasse com o máximo de roupas que eu tinha e nunca tive perfume importado.

Quando meus pais se separaram, a qualidade de vida caiu muito dentro de casa. Vi uma mãe trabalhar muito pra poder dar conta de colocar dinheiro suficiente em casa, e muitas vezes sem sucesso. Isso pra mim não é vergonha nenhuma dizer que por muitas vezes passamos sérias dificuldades. Aprendi muito nessa época. Perdi muitos entes queridos mais ou menos nessa fase. Foi quando tinha 15 anos que decidi começar a trabalhar e a fazer provas pra escolas públicas de qualidade para poder estudar um Ensino Médio bom sem dar muitas despesas, e o meu pensamento sobre trabalhar inicialmente era: "Bom, já que ninguém pode me dar dinheiro pra passear e comprar roupas, se eu trabalhar e tiver meu próprio dinheiro já vai ajudar muito." E foi aí que eu fiz 16 anos já com um emprego garantido, o empregador estava esperando eu fazer 16 pra eu poder começar a trabalhar. Minha mãe quase caiu dura quando eu falei pra ela da minha façanha. Então com 16 anos eu trabalhava de dia por um salário micro de Adolescente Trabalhador no banco e à noite estudava no Colégio Pedro II (consegui \o/).

Quando chegou a vez do vestibular, eu também sabia que ninguém teria como pagar um curso preparatório pra mim. Meti as caras, estudei sozinha, fiz matrícula em todos os provões de bolsa e consegui 75% em um curso bem legal aqui no Rio. Meus pais só precisariam pagar minhas apostilas e 25% da mensalidade.

Nessa mesma época, passei para um curso Técnico no CEFET/RJ. Rearrumei meus horários e então fazia o colégio de manhã, pré à tarde e CEFET à noite. Parei de trabalhar e contive minhas despesas ao máximo. Nada de roupas novas e saídas com os amigos / namorado, eu tinha uma prioridade. E ter foco deu certo. Passei pra UERJ naquele ano (mas teria que entrar com recurso pra um curso que não estava tão a fim – longa história), e no ano seguinte, UFRJ e UFF. Quase ninguém acreditou na minha capacidade, e esfregar o resultado na cara de todo mundo que me colocou pra baixo foi ótimo pro meu ego adolescente.

Escolhi UFRJ e lá fui eu. Mas encarar a realidade de que 90% das pessoas que estudam com você naquela faculdade moram na Zona Sul do Rio ou na "Zona Sul" de Niterói, têm dinheiro, carro, e já tinham feito várias viagens pra fora do país não é fácil. Eu me deparava com comentários sarcásticos dos professores, do tipo: "Não tem dinheiro pra comprar uma câmera digital mas quer fazer Arquitetura? Acho melhor você mudar de curso, querida." Ou: "Você não tem um laptop? Está fazendo o que na minha aula então?" Sinceramente muitas vezes eu saía da sala chorando e foi muito traumático pra mim. Poucas pessoas podiam chegar perto de mim e dizer que sabiam o que eu estava passando, porque elas simplesmente não sabiam. Eu me sentia humilhada porque eu era mais pobre do que os outros alunos. Logo no primeiro período eu comecei um estágio pra poder ganhar dinheiro de novo e ajudar minha mãe a comprar os milhões de materiais caros de desenho, projeto e maquete. Mas nunca era o suficiente. Então, quando eu entrava de férias, meus amigos iam fazer mochilão na Europa, faziam Work Experience nos EUA, e eu pegava a vaga deles no estágio, e ficava com 2 estágios nas férias. E nunca tirava férias. E nunca descansava. E mesmo assim, ainda não conseguia suprir todas as despesas da faculdade e eventualmente minhas despesas de roupas e sapatos.

Foi bem nessa época que minha mãe caiu muito doente e perdi meu estágio e período na faculdade porque tinha que cuidar dela. Ela perdeu o emprego e eu tive que dar conta de todas as despesas da casa. Meu cartão de crédito foi pro buraco, não tinha ninguém pra me ajudar e eu tinha muito medo de não ter mais minha mãe comigo. Passamos juntas por mais essa, mas os resquícios financeiros duraram anos.

Depois de algum tempo, finalmente eu casei. Muitas pessoas viraram a cara pra mim porque eu não convidei pro casamento. Sinto muitíssimo por elas, mas eu pagamos o casamento com nosso dinheiro, que era pouco, quase nada, e eu e meu noivo priorizamos nossas famílias e amigos íntimos como convidados (óbvio). Entramos numa casa alugada, quase sem móveis, pra ser mais exata, sem nenhum armário e sem máquina de lavar, e eu lavei roupas na mão por quase 1 ano, até conseguirmos comprar um tanquinho. Hoje, depois de 3 anos, olho pra trás e vejo como lutamos juntos, como superamos muitas e muitas coisas juntos.

Não me sinto a mais madura hoje, continuo me sentindo a mesma adolescente com um mundo de coisas a aprender, e com muito medo por saber que daqui a 8 semanas serei mãe, e terei a enorme responsabilidade de tentar ser pro meu filho, sei lá, pelo menos 1/10 do que minha mãe foi e continua sendo pra mim. E se eu conseguir ser 1/10, sei que terei feito um bom trabalho.

Então, simplesmente não venha falar mal da sua mãe na minha frente. Posso não conhecer ela, mas sei quanto vale uma mãe de verdade, porque daria a minha vida pela minha. E nem venha querer me vender uma calça jeans por mais de 70 reais, porque eu vou rir na sua cara, mesmo que meu marido queira enfiar a cara num buraco por eu estar rindo sarcasticamente na frente de todo mundo. Não me diga que não precisa olhar quanto custa o quilo da carne, basta olhar o peso. Eu não compro lagarto redondo por 15 reais o quilo, eu vou no dia da promoção da carne, me estapeio com todo mundo e compro o quilo por R$9,99. Eu sei quanto custa o dinheiro que está na minha carteira. E mais do que isso: eu sei quanto vale uma mãe.

Metas para 2017
{Teatro} VeRo – Cia de dança Déborah Colker
Eu e minha mania de Hermione Granger

6 comentários
  • Aninha

    Poxa Mariana, me emocionei muito com a sua experiência… não é qualquer pessoa que consegue passar por tudo e isso e continuar lutando todos os dias. Não posso dizer que sei o que você sentiu porque não vivi nem um terço disso. Mas sei o quanto isso tem valor. Pode ter certeza que a sua mãe sente muito orgulho de você por isso. São poucas as pessoas que sabem valorizar o amor de uma mãe como você fez! Tenho certeza que vai ser uma ótima mãe! :) Muitas felicidades, saúde e tudo tudo tudo de bom pra você e o seu bebê! Bjs!

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    Mariana Cruz Reply:

    quando minha mammy for embora acho que eu vou querer ir junto rsrsrsrs
    acho que cada um passa exatamente aquilo que precisa passar pra poder aprender a ser mais forte e ser moldado mais um pouco… 😉
    bjinhus e obrigada pelo comentário :)

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  • Mari

    Você é a cara da sua mãe e tenho certeza que será uma mãezona como ela. Quem passa por tudo isso, aprende o que vale de verdade na vida. 😉
    Beijos

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    Mariana Cruz Reply:

    tomara que eu seja uma mãezona como ela :)))))))))))))))))))))
    bjos

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  • Isa Secol

    Oi Mari! Tudo bem? 😀
    Viu, criei uma tag lá no blog (http://diasdeventura.com/tag-5-fotos-5-paragrafos/) e te indiquei, vê se gosta, e se for fazer me avisa ^^ Beijão!

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    Mariana Cruz Reply:

    oba! vou lá ver 😉
    bjos

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