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#StopTheBeautyMadness

Está todo mundo por aí postando foto sem make, desafiando outros a postar também. Tem até aposta, envolvendo dinheiro, pra pessoa colocar uma foto sem make na internet. Outros já dizem que foto sem make é fácil, que queria ver mesmo era o RG.
Isso tudo é uma distorção muito triste de uma campanha séria e profunda que está rolando pelo mundo. O nome da campanha é Stop The Beauty Madness. Ela traz você a fotografar si mesmo de maneira real, e levar as outras pessoas a conhecer seus questionamentos interiores de inadequação, como um alerta à todos, de como vivemos num mundo louco com padrões de beleza irreais e inalcançáveis, e quanto sofrimento esses padrões podem trazer.

Cresci escutando de todo mundo à minha volta que eu era gorda. Cresci sendo a amiga mais feia, a amiga mais gordinha, a amiga resto. Primeiro as meninas do meu grupo escolhiam os melhores caras pra se apaixonar, pra namorar, e depois era eu. Eu sempre acreditei que eu era a mais feia, porque todo mundo sempre me disse isso e eu sempre fui muito insegura. Eu olhava as meninas na TV e todas elas eram lindas e magras, o cabelo domado, e eu, mesmo tendo cabelo liso, ele enchia e eu virava a Gal. Sempre me achei muito feia por ter dente torto, e depois que comecei a usar óculos o estereótipo de menina-nerd-que-ninguém-namora se concretizou pra mim. Embora minha mãe sempre me dissesse que eu era bonita, eu fechava a porta do quarto e falava pra mim mesma: "Elogio de mãe não conta".

Essa sempre foi a imagem (distorcida) que eu tive de mim. À procura da imagem perfeita eu ficava mais de 1 semana só comendo maçãs, e quando começava a me sentir tonta, colocava sal embaixo da língua. Mesmo assim eu ainda me sentia maior e mais pesada que elas. Eu nunca conseguia trocar roupa com elas porque meu manequim era sempre pelo menos 2 números maiores. E os sapatos também. Eu ainda não falei dos pés, né?

Quando se tem 12 anos e sapato 38, não é uma coisa muito agradável. Eu achava que tinha o maior pé do mundo, e nem usava sandálias abertas, porque meus dedos eram feios demais para serem mostrados ao mundo. Enquanto todas as minhas amigas usavam e abusavam das sandálias altas de tirinha, eu usava um sapato fechado com salto menor e mais grossinho, porque meu pé era grande, meus dedos feios, eu era gorda e desastrada e não queria cair.

Essa foi a minha adolescência.

Muitas vezes eu me achava tão inadequada que tinha certeza que nunca namoraria alguém que realmente eu gostasse. Quem aparecia eu aproveitava, porque achava que se eu não aproveitasse, talvez pro resto da minha vida eu nunca mais teria ninguém. Me esforçava por gostar daquele cara ridículo em todos os sentidos, porque ele poderia ser o único cara do planeta a ver alguma coisa especial em mim, que na verdade nem eu via.

Eu tinha uma coleção beeeem grande de revistas de beleza, porque todo mês eu não podia perder a dieta que me deixaria magra de uma vez por todas. Não podia perder o exercício que finalmente faria eu perder meus pneuzinhos da barriga e ter a coxa menos flácida. Cortava as páginas da revista e colava atrás da porta do meu quarto pra estar sempre à vista e eu não me esquecer onde eu queria chegar.

Acho que cheguei. No fundo do poço, pra ser mais exata. Passei muitos anos nesse loop nem um pouco saudável. Me apaixonava por tabela pelos namorados das minhas amigas platonicamente, e viajava com elas contando as histórias românticas de flores e bichinhos de pelúcia ganhados. Na minha cabeça, essa era a única gota de felicidade que eu tinha direito. Eu, uma garota feia, gorda, alta demais, com pé grande, dedos feios, desastrada, com dente torto e cabelo indomável.

Quando entrei pra faculdade decidi me revoltar. Decidi que pararia de sofrer por causa disso e que me libertaria. Me "libertei" até demais. Joguei as revistas de beleza no lixo. Comecei a aloprar, namorando um monte de garotos, pintando o cabelo de um monte de cor, colocando piercing, matando aula, indo a chopadas. Mas nada daquilo preenchia o vazio, nem fazia eu me sentir mais bonita. Eu estava apenas tentando ser quem eu não era e mais uma vez me adequar àquele novo padrão pra mim: o universitário, de garotas rycas e phynas.

Em última instância, liguei a seta pra dieta, já que todas as minhas tentativas de adequação, durante toda a vida, haviam sido frustradas. Comecei a comer tudo que eu queria e comecei a engordar mais ainda, mas me enganava dizendo que eu estava "liberta". Alguns anos depois, quando perdi meu filho, comecei a me achar, além de tudo, incapaz de gerar um filho. Engordei 30 quilos no total, comendo a minha tristeza e inadequação.

Até hoje na verdade eu ainda luto com isso. Será que um dia eu me liberto totalmente? Não me acho mais tão alta, nem tenho mais o problema de mostrar o pé. Gastei rios de dinheiro com aparelho no dentista, e descobri que mantendo o cabelo mais comprido ele pesa e não enche tanto. Por esse lado não sou mais tão monstra. Mas ainda tenho muitos questionamentos.

Hoje, com quase 30 anos, sei que muito do que eu senti na adolescência se deve a esse padrão de beleza inalcançável de TV e revista retocada pelo Photoshop. Mas também a outra metade do que eu sinto é porque as pessoas sempre impuseram a mim um padrão que elas achavam ideal, e eu aceitei isso, por ser insegura, por me olhar com um olhar tão crítico que não me permitia ver minha própria beleza através das imperfeições.

Afinal, não somos todos imperfeitos? Que atire a primeira pedra quem nunca teve uma espinha, quem não tem um mindinho defeituoso e quem nunca achou uma imperfeição no espelho.

Chega de padrões impossíveis. Chega de imagem "ideal".

#StopTheBeautyMadness

Esse post faz parte da blogagem coletiva do Rotaroots, um grupo de blogueiros das antigas que fazem o possível para manter o velho espírito dos diários virtuais.
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19 comentários
  • Priscila

    Mari, você é linda. Sério. Acredito que sempre tem alguém que quer nos deixar pra baixo, criticando, e isso é uma puta babaquice. Aprendi, depois de muito tempo, que a única pessoa que deve me julgar, sou eu mesma.

    Adorei seu post, foi muito sincero e emocionante. <3

    Beijão!

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    Mariana Reply:

    <3

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  • Ana Luísa

    Mari, muito forte e bonito o seu post. Dar a cara a tapa e contar essas histórias todas realmente não deve ser fácil – mas foi muito mais difícil passar por tudo isso. Esse tema está me fazendo amar os posts e pensar muito sobre o assunto também. Beijos!

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    Mariana Reply:

    Fiquei com muita vergonha de escrever a princípio. Mas como um outro post que eu escrevi sobre o dia dos namorados muitas meninas vieram me agradecer por ter ajudado a elas, achei que embora eu fosse me expor, seria por uma boa causa.
    Eu tb estou amando os posts! Bjos :)

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  • Rafaella Ribeiro

    Seu post também me inspirou a escrever sobre isso no meu blog e adiantar a postagem do Rotaroots. Essa jornada de auto-aceitação é difícil e trabalhosa, mas é libertadora. Um dia veremos como qualidades aquelas coisas que nós e o mundo achamos defeitos.

    Tudo de bom e do bem :)
    Beijos
    http://rafaellaribeiro.com

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    Mariana Reply:

    que bom! fico feliz!
    vou lá visitar vc! :) bjos

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  • Adriana Monteiro

    Às vezes, em meio às besteiras que a gente lê na internet, a gente se depara com textos tão lindos, tão sinceros e tão intensos quanto esse seu.
    Como a Ana Luísa falou aqui em cima, não deve ter sido fácil pra você escrever esse post, mas te digo uma coisa: obrigada por ter escrito…

    [Reply]

    Mariana Reply:

    <3

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  • Maria Ienke

    Ninguém é perfeito, Mari, mas as pessoas querem que sejamos perfeitos! Essa época de escola era muito ruim mesmo, tínhamos que ser todas iguais. A gente nunca repara no defeito até alguém apontar ele. Triste realidade!

    Beijo, lindo texto! E você também é linda <333

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    Mariana Reply:

    <3

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  • Neli Carpinter

    Olá!
    Às vezes fico pensando como chegar aos "padrões de beleza" impostos pela sociedade… quando vc acha q chegou lá, eis que tudo já mudou, não basta mais ser magra, tem q ser esquelética, e por aí vai…vão se criando verdadeiras alienadas que deixam de ser quem é para tentar se encaixar no tal padrão.

    Bjus

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    Mariana Reply:

    #verdade 😉

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  • Roberta

    Já fui até desafiada, mas não participei. Não por que não tenho coragem e pq tô achando tudo isso uma bobagem. Não tenho vergonha do que eu sou. Passei pela mesma situação que vc. Sempre fui gordinha e por mais que eu dissesse que isso não me afetava em nada, eu sempre sofria por dentro e só Deus sabia como era ruim. Hoje, encontrei alguém que me aceita como eu sou e eu também me aceito. Já me acho até "sexy" dessa forma 😛

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    Mariana Reply:

    <3

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  • Babee

    Incrível como todo mundo já passou por algum desconforto na aborrecência, ás vezes me dá vontade de voltar naquela época e ser quem eu sou agora, seria tudo tão diferente, mas é impossível fazer isso e é até melhor, pois como dizem, nas pedras que jogam que construímos nosso castelo, né? HAHAHA Clichêzão, mas é verdade, a perfeição é algo tão relativo, tão abstrato e mutável, que nunca ficaremos satisfeitos mesmo, mas podemos ficar satisfeitos em sermos felizes como somos, com todos os defeitinhos sim, mas com todas as qualidades também <3 Se a vida for perfeição, de que graça vai ter andar numa linha reta? Tem mais graça viver numa montanha russa, porque sabemos que quando descemos, é pra subir mais alto 😀

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    Mariana Reply:

    eu imaginei o meu EU de hoje indo pra escola… seria delicioso hahahaha 😉

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  • Isa Ribeiro

    Bom, sou adolescente e tenho um nariz grande. Eu nunca me senti desconfortavel pelo fato de não ser o pequenininho, empinadinho. Mas, as pessoas sim. E hoje em dia, para ser sincera, tenho muita vontade de fazer uma plástica, e mostrar que um nariz "ideal" não alterará nada em mim, tanto fisicamente, quanto psicologicamente.
    Um beijo!
    http://www.blogconnectedgirls.blogspot.com.br

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    Mariana Reply:

    as pessoas sempre gostam de dar palpite…….. :(
    bjos

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