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Sobre a formação de leitores no Brasil

Essa semana que passou agora, assisti uma mesa de debate maravilhosa na Feira Editorial da UERJ, que me inspirou muito. Foi com o Aníbal Bragança, que é o editor-chefe da Eduff. Um assunto em especial me marcou bastante, que foi sobre a formação de leitores no nosso país.

Em primeiro lugar, devemos compreender que o Brasil ainda está muito aquém em quantidade e qualidade de leitura, se compararmos com outros países, principalmente mais desenvolvidos. É triste saber que, apesar de alguns locais específicos no Brasil terem uma média de leitura que se compara à Europa, o resto do país mal sabe ler.

A maioria dos municípios do Brasil não têm bibliotecas públicas também. E pasmem, mesmo no Estado do Rio de Janeiro não temos bibliotecas públicas em todos os locais. Se aqui no RJ não tem, imagina mais pro interiorzão do país?

Esse é realmente um assunto muito sério, que desdobra em muitos outros. Pessoas que não têm acesso à leitura, que não têm capacidade de ler textos longos, que não têm acesso ao livro e à informação (e muitas vezes à educação). Fui escutando tudo aquilo e foi batendo um desespero, um aperto no coração, por me dar conta de repente, que apesar de não ser rica, eu estou numa fatia privilegiada da população, porque a realidade do brasileiro é bem diferente da minha em relação a isso. Eu tenho acesso às faculdades públicas mais conceituadas do país, tenho acesso à livros e internet, cresci com livros à minha volta. Por um momento me senti culpada por ter isso. Mas na verdade a questão não é essa. A questão é que todos deveriam ter as mesmas oportunidades.

Chegamos a um ponto crítico no debate, que foi discutido que há algumas maneira de se formar um leitor:
Exemplo dos pais;
Uma professora querida que conseguirá ter sucesso com você;
Chutar a porta e sair entrando.

Acredito que o exemplo dos pais é a melhor saída. É o cenário ideal, inclusive. Se você cresce em um ambiente com livros, se você tem livros desde pequeno e se você vê seus pais lendo como hobby, automaticamente o livro já vai fazer parte da sua vida. Você irá conceber uma ideia de que o livro não é massante nem obrigação. Ele é prazeroso, afinal seus pais usam como distração. Se a criança tem esse tipo de contato, provavelmente crescerá com uma probabilidade maior de ser um leitor (e quem sabe escritor, dependendo da vocação). Mas sejamos realistas: para isso, pais precisam ser leitores, e pais precisam comprar livros pra si e pros filhos. E essa, infelizmente, é a fatia menor da população.

A segunda possibilidade seria uma professora que ama seu magistério e quer fazer a diferença. Aqui, sabemos o trabalho, o suor e as lágrimas que são derramadas. Uma professora não consegue atingir toda a sua turma. Aliás, se ela faz diferença na vida de um aluno naquele ano, já é motivo de orgulho. É muito mais difícil você formar um leitor quando não tem o exemplo de casa, e quando a criança tem acesso ao livro como um objeto de "repressão". Ele precisa parar de brincar, parar de falar, parar de pensar na morte da bezerra e precisa olhar pro livro. Precisa. É assim que ele é ensinado. Tem que haver muita sensibilidade de um professor para fazer projetos de leitura onde consiga desmistificar toda essa imagem errada intrínseca ao livro. E pra isso, como dizem por aí, é tiro, porrada e bomba.

A terceira e a mais improvável, seria alguém, por vontade própria, em idade já avançada, onde consegue fazer suas próprias escolhas, ESCOLHER ser leitor. E meter o pé na porta da vida e dizer pra si mesmo: EU VOU LER. Não importa se na infância não teve exemplo dos pais, nem acesso aos livros ou a um professor que quisesse (ou conseguisse) fazer diferença. Improvável, mas possível. Aí a pessoa rema contra a maré, faz um esforço hercúleo pra sentir facilidade e prazer em algo que deveria ter adquirido lá atrás. Mas entenda: é possível.

É um assunto tão complexo e delicado. Toda essa conversa na UERJ, inclusive, me fez perceber que meu filho tem sido a fatia menor da população também, porque aos 2 anos ele já tem uma mesa de leitura e uma prateleira com muitos exemplares. E me vê lendo bastante. Quando estou deitada lendo, ele vai até a prateleira dele, escolhe um livro e deita do meu lado. E fica me cutucando, pra compartilhar a leitura: "Olha mamãe! A aranha! A baleia!" E eu fico dividida entre continuar lendo meu livro ou parar o meu pra ler com ele.

Enfim… Ainda tenho a esperança, lá no fundinho do meu coração, que um dia as coisas vão melhorar. E que meu filho não vai ser a exceção. E que cada um poderá dizer que tem um livro preferido na vida.

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